Espero que apreciem e comentem.
A Revolta dos Gênios - Parte 4
"O reino de Yrlahn sofria com mais catástrofes do que o mais pessimista aventureiro poderia supor. O extremo oeste, região predominantemente litorânea, foi acometido por violentos maremotos. Em algumas cidades praieiras, a água do oceano se transformou em lava vulcânica antes de cobrir casas e famílias. Vermes gigantes emergiram do chão, as nuvens que acobertavam o sol tornaram-se venenosas, a chuva, quando caiu, desceu ácida sobre os transeuntes.
Aventureiros, mercenários e soldados da Coroa transitavam pelo reino feito baratas tontas, na ilusão de que sua simples presença poderia evitar as desgraças, ou de que seus parcos poderes seriam capazes de auxiliar a minimizar o número de vítimas. O que, infelizmente, não acontecia.
Enquanto isso, magos trancafiavam-se em seus laboratórios, fazendo uso do conhecimento teórico do qual sempre abriram mão. A magia natural e instintiva na qual tanto confiaram tinha se voltado contra eles. Só lhes restava seguir o caminho a que haviam se recusado: o da disciplina e do estudo metódico.
Eram horas nas quais poderosos conjuradores se debruçavam sobre livros empoeirados, tomos arcaicos e páginas amareladas, sob a luz trêmula de tocos de velas, procurando orientações sobre como conter a absurda quantidade de energia arcana existente no reino. Muitos se reuniam em grupos, discutindo ardorosamente teorias, formulando ousados planos de ação e debatendo possíveis causas da terrível crise que os assolava.
Dias passaram, sem que qualquer um deles tivesse o menor vislumbre de uma solução.
***
Faltavam apenas dois dias para a virada de lua a que Ahfrak se referiu. Dyrdosh também tinha passado as últimas horas fazendo anotações, cálculos e lendo dois livros escritos em algum idioma antigo. Ele havia dito a Maross e Yana que eles poderiam usar o tempo livre para procurarem recuperar suas energias – ou tentar se fortalecer de alguma forma.
A Ezamyr, Dyrdosh perguntou apenas qual o templo em louvor a Moreito mais próximo que ele conhecia. Na empolgação de sua pesquisa, ele não notou que estava em seu reino natal – não no de Ezamyr. Era ele quem deveria saber a localização dos principais templos de Yrlahn. Fosse como fosse, ambos lembraram da existência de uma valorosa ordem de paladinos que ficava a algo em torno de noventa quilômetros dali.
Dyrdosh não deu detalhes sobre o que pretendia fazer, nem para que precisaria da ajuda dos paladinos de Moreito, mas a idéia agradou muito a Ezamyr, que depois de algumas horas deixou de fazer perguntas.
- Muito bem! As coisas estão caminhando melhor do que eu supunha que caminhariam! – o mago bradou, mais para si mesmo que para os colegas.
Faltava apenas um dia e meio para a virada de lua.
***
Em uma dimensão não mais tão distante, algo muito próximo ao que em Adalahar se chamaria de “um conselho”. Criaturas espectrais, formadas por uma incompreensível combinação de elementos e magia arcana confabulavam em clima de tensão absoluta.
- Ahfrak rompeu o juramento. Ele selou o próprio destino. Embora eu deva reconhecer que aumentou as chances de nos salvarmos.
- Não sei se o objetivo dele justifica os meios que ele empregou, mas agora é tarde para nos lamentarmos. O que está feito está feito. Lamento apenas que ele tenha tido a infelicidade de abordar criaturas sábias do plano material. Isso pode comprometer o que planejamos.
- Se os seres daquele mundo não matarem mil pessoas, nós mesmos arrumaremos uma forma de fazer isso, mesmo que indiretamente.
- Isso significaria mais envolvimento de nossa parte. Não seria imprudente?
- Não vejo esse como um momento para nos preocuparmos com prudência. O perjúrio de Ahfrak terá conseqüências para todos nós. Conseqüências essas que só poderão ser minimizadas se tomarmos o plano material. Então, que corramos de uma vez todos os riscos!
Silêncio!
- Mil pessoas?
- Mil pessoas!
- Já sei de que maneira ceifar aquelas vidas indiretamente!
- Então, não percamos mais tempo!
Mil pessoas.
***
- Muito simples! – era Dyrdosh com empolgação adolescente – Descobri, após muitos esforço e pesquisa, uma forma de realizar um ritual que pode reconstruir a membrana que separa os mundos. Na verdade, não é bem isso: é um ritual que irá “expulsar” de Adalahar tudo que for oriundo de outro plano da existência de forma definitiva.
- Sem usar vidas inocentes? – perguntou Ezamyr – É para isso que precisa dos paladinos de Moreito?
- Sim. Ahfrak nos relatou que a energia vital liberada quando alguém morre tem um poder inacreditável, e isso é bem verdade. Entretanto, uma energia bastante similar, e igualmente poderosa, pode ser gerada por sacerdotes e paladinos.
- Está se referindo à energia positiva usada para expulsar mortos-vivos e criaturas extraplanares?
- Exato, Ezamyr. E acho que nem precisaremos de mil paladinos – Dyrdosh se permitiu uma risada – Em um ritual adequadamente conduzido, e partindo do princípio de que todos os participantes tenham uma fé tão sincera e profunda quanto a sua, podemos gerar um poder suficiente para expulsar de nosso mundo toda essa energia arcana que não deveria estar aqui.
Maross balançou a cabeça em um movimento vertical, indicando que assentia em silêncio. Yana estava boquiaberta e nada conseguiu dizer ou fazer.
- Entretanto, há alguns problemas – disse Dyrdosh.
- O primeiro deles – Ezamyr o interrompeu – é que talvez os paladinos daquela Ordem não estejam confortavelmente lá dentro esperando a crise passar. É bem provável que estejam espalhados pelo reino tentando ajudar o povo inocente.
- É algo que pode acontecer. Há também o problema de que temos apenas um dia, e não tenho certeza se minha magia arcana conseguirá nos levar até lá a tempo.
Todos ficaram em silêncio. Dyrdosh franziu o cenho como há dias não fazia.
- E o pior, é que Ahfrak e os arquigênios estão nos vigiando.
Maross tratou de completar a frase derradeira.
- E eles tentarão nos impedir!"
CONTINUA...