RPG Contos

sábado, 5 de maio de 2012

A Revolta dos Gênios - Parte 4 de 7

Olá, amigos. Segue a continuação da saga "A Revolta dos Gênios".

Espero que apreciem e comentem.

A Revolta dos Gênios - Parte 4


"O reino de Yrlahn sofria com mais catástrofes do que o mais pessimista aventureiro poderia supor. O extremo oeste, região predominantemente litorânea, foi acometido por violentos maremotos. Em algumas cidades praieiras, a água do oceano se transformou em lava vulcânica antes de cobrir casas e famílias. Vermes gigantes emergiram do chão, as nuvens que acobertavam o sol tornaram-se venenosas, a chuva, quando caiu, desceu ácida sobre os transeuntes. 
Aventureiros, mercenários e soldados da Coroa transitavam pelo reino feito baratas tontas, na ilusão de que sua simples presença poderia evitar as desgraças, ou de que seus parcos poderes seriam capazes de auxiliar a minimizar o número de vítimas. O que, infelizmente, não acontecia.
Enquanto isso, magos trancafiavam-se em seus laboratórios, fazendo uso do conhecimento teórico do qual sempre abriram mão. A magia natural e instintiva na qual tanto confiaram tinha se voltado contra eles. Só lhes restava seguir o caminho a que haviam se recusado: o da disciplina e do estudo metódico.
Eram horas nas quais poderosos conjuradores se debruçavam sobre livros empoeirados, tomos arcaicos e páginas amareladas, sob a luz trêmula de tocos de velas, procurando orientações sobre como conter a absurda quantidade de energia arcana existente no reino. Muitos se reuniam em grupos, discutindo ardorosamente teorias, formulando ousados planos de ação e debatendo possíveis causas da terrível crise que os assolava. 


Dias passaram, sem que qualquer um deles tivesse o menor vislumbre de uma solução.


***


Faltavam apenas dois dias para a virada de lua a que Ahfrak se referiu. Dyrdosh também tinha passado as últimas horas fazendo anotações, cálculos e lendo dois livros escritos em algum idioma antigo. Ele havia dito a Maross e Yana que eles poderiam usar o tempo livre para procurarem recuperar suas energias – ou tentar se fortalecer de alguma forma. 
A Ezamyr, Dyrdosh perguntou apenas qual o templo em louvor a Moreito mais próximo que ele conhecia. Na empolgação de sua pesquisa, ele não notou que estava em seu reino natal – não no de Ezamyr. Era ele quem deveria saber a localização dos principais templos de Yrlahn. Fosse como fosse, ambos lembraram da existência de uma valorosa ordem de paladinos que ficava a algo em torno de noventa quilômetros dali. 
Dyrdosh não deu detalhes sobre o que pretendia fazer, nem para que precisaria da ajuda dos paladinos de Moreito, mas a idéia agradou muito a Ezamyr, que depois de algumas horas deixou de fazer perguntas. 


- Muito bem! As coisas estão caminhando melhor do que eu supunha que caminhariam! – o mago bradou, mais para si mesmo que para os colegas. 


Faltava apenas um dia e meio para a virada de lua.


***


Em uma dimensão não mais tão distante, algo muito próximo ao que em Adalahar se chamaria de “um conselho”. Criaturas espectrais, formadas por uma incompreensível combinação de elementos e magia arcana confabulavam em clima de tensão absoluta.


- Ahfrak rompeu o juramento. Ele selou o próprio destino. Embora eu deva reconhecer que aumentou as chances de nos salvarmos.
- Não sei se o objetivo dele justifica os meios que ele empregou, mas agora é tarde para nos lamentarmos. O que está feito está feito. Lamento apenas que ele tenha tido a infelicidade de abordar criaturas sábias do plano material. Isso pode comprometer o que planejamos.
- Se os seres daquele mundo não matarem mil pessoas, nós mesmos arrumaremos uma forma de fazer isso, mesmo que indiretamente.
- Isso significaria mais envolvimento de nossa parte. Não seria imprudente?
- Não vejo esse como um momento para nos preocuparmos com prudência. O perjúrio de Ahfrak terá conseqüências para todos nós. Conseqüências essas que só poderão ser minimizadas se tomarmos o plano material. Então, que corramos de uma vez todos os riscos!


Silêncio!


- Mil pessoas?
- Mil pessoas!
- Já sei de que maneira ceifar aquelas vidas indiretamente!
- Então, não percamos mais tempo!


Mil pessoas.


***


- Muito simples! – era Dyrdosh com empolgação adolescente – Descobri, após muitos esforço e pesquisa, uma forma de realizar um ritual que pode reconstruir a membrana que separa os mundos. Na verdade, não é bem isso: é um ritual que irá “expulsar” de Adalahar tudo que for oriundo de outro plano da existência de forma definitiva. 
- Sem usar vidas inocentes? – perguntou Ezamyr – É para isso que precisa dos paladinos de Moreito?
- Sim. Ahfrak nos relatou que a energia vital liberada quando alguém morre tem um poder inacreditável, e isso é bem verdade. Entretanto, uma energia bastante similar, e igualmente poderosa, pode ser gerada por sacerdotes e paladinos. 
- Está se referindo à energia positiva usada para expulsar mortos-vivos e criaturas extraplanares?
- Exato, Ezamyr. E acho que nem precisaremos de mil paladinos – Dyrdosh se permitiu uma risada – Em um ritual adequadamente conduzido, e partindo do princípio de que todos os participantes tenham uma fé tão sincera e profunda quanto a sua, podemos gerar um poder suficiente para expulsar de nosso mundo toda essa energia arcana que não deveria estar aqui.


Maross balançou a cabeça em um movimento vertical, indicando que assentia em silêncio. Yana estava boquiaberta e nada conseguiu dizer ou fazer.


- Entretanto, há alguns problemas – disse Dyrdosh.
- O primeiro deles – Ezamyr o interrompeu – é que talvez os paladinos daquela Ordem não estejam confortavelmente lá dentro esperando a crise passar. É bem provável que estejam espalhados pelo reino tentando ajudar o povo inocente.
- É algo que pode acontecer. Há também o problema de que temos apenas um dia, e não tenho certeza se minha magia arcana conseguirá nos levar até lá a tempo.


Todos ficaram em silêncio. Dyrdosh franziu o cenho como há dias não fazia.


- E o pior, é que Ahfrak e os arquigênios estão nos vigiando.


Maross tratou de completar a frase derradeira.


- E eles tentarão nos impedir!"

CONTINUA...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A revolta dos gênios - Parte 3 de 7

Olá, amigos. Um trilhão de desculpas pela demora em dar sequência a "A revolta dos gênios", mas lhes asseguro que isso não voltará a acontecer.

Sem mais, espero que apreciem e comentem.

A revolta dos gênios - Parte 3


"A vontade de se entregar à inconsciência sobrepujou a curiosidade, e Yana desmaiou. Maross quis acudi-la, mas seu olhar ficou preso, fixo na criatura recém-chegada, não o deixando ir até sua irmã. Ezamyr sentiu uma súbita tontura. Dyrdosh, não tendo certeza das intenções do invasor, tentou preparar uma conjuração de ataque. Porém não conseguiu.


- Eu vos saúdo, habitantes do plano material. O tempo corre contra minha raça, e também contra a sua, por isso tentarei ser direto. Sou Ahfrak, arquigênio do fogo, e venho porque apenas a união de nossas forças pode impedir uma desgraça de proporções cósmicas. 
- Ahfrak? Arquigênio do fogo? – era Ezamyr.
- Sim, foi isso o que ele disse – murmurou Maross.
- Não poderei desperdiçar meu tempo perguntando seus nomes, nem ouvindo suas prováveis perguntas. Vou pedir-lhes que me ouçam, sem interrupções, estando vocês cientes de que de sua compreensão e cooperação depende o futuro de seu mundo. E também do meu.


Yana começou a se debater, e as atenções se voltaram a ela por um curto instante. Ela acordou com um grito, e gritou ainda mais quando contemplou o gênio diante deles. Era uma criatura de forma espectral, cujos contornos do corpanzil de formato humanóide pareciam intangíveis. O rosto era um punhado de labaredas com olhos, boca, nariz e orelhas de um vermelho mais intenso, que os diferenciava do restante da face. O indivíduo também não tinha corpo abaixo das ancas. Ao redor dele, chamas mágicas cujo calor mais confortava do que queimava.


- Espero que agora me permitam explicar o que ocorre.
- Por favor! – respondeu Ezamyr.
- Como sabem, seu mundo e o meu são separados por uma poderosa membrana, que não pode ser rompida por ninguém com poder inferior a um deus. No entanto, recentes acontecimentos que se encontram além do meu entendimento, e mais ainda do de vocês, perturbou o fino equilíbrio que mantinha a ordem. A membrana está de tal forma fragilizada, que os mundos estão se tornando um. Eis porque coisas estranhas estão acontecendo com seu povo.


Os quatro mantiveram o silêncio solicitado pelo gênio, na esperança de que ele continuasse, mas como isso não acontecia, tiveram que se manifestar.


- E como impedimos tudo isso? – perguntou Ezamyr – Como salvamos o seu e o nosso mundo?
- Uma pergunta óbvia, uma resposta complexa. A energia arcana que flutua livremente por entre os mundos não pode ser simplesmente dominada, nem cancelada. A menos que algum deus interferisse pessoalmente. A restauração da membrana é a única opção viável. Embora o preço a se pagar por isso seja alto. Mais do que eu suponho que vocês estejam dispostos a pagar, ainda que seja pouco comparado ao preço que todos nós pagaremos se nada for feito. 
- Seja direto! – bradou Maross, com o cenho mais franzido que de costume.
- Precisamos de vidas. Ou melhor, de mortes. 
- Isso é um absurdo! – gritou Ezamyr.


Ahfrak fez um gesto com a mão, indicando que ainda não havia terminado.


- É provável que não saiba, mas poucas energias são tão poderosas quanto as que são liberadas quando um ser vivo abandona esse plano da existência. A energia viva que se libera do cadáver e retorna ao ambiente, é muito mais grandiosa do que se supõe. Com uma grande quantidade dela, seria possível reconstruir a membrana que separa os mundos. 
- Quantas pessoas? – perguntou Dyrdosh.
- Algo em torno de mil.
- O que? – vociferou Ezamyr, desembainhando sua arma – Como se atreve?


Antes que uma batalha se iniciasse, Maross deteve o colega, com algum esforço. O sacerdote se debatia nos braços do guerreiro, enquanto Dyrdosh limitava-se a olhar de forma inquisitiva ao gênio, que evitava o contato olho no olho. 


- O Grande Moreito não permitirá que uma carnificina seja realizada sob o pretexto de salvar mundos. Vocês que salvem seu mundo, e nós daremos um jeito de salvar o nosso – Ezamyr gritava.


Maross forçou-se a tapar com sua mão a boca de seu amigo, e apertá-lo com mais intensidade, até que a dor o fizesse se calar. Yana correu até o irmão, tentando acalmá-lo, mas ele estava mais tranqüilo do que todos os outros. 


- Eu não teria porque vir até aqui contar mentiras. E como já disse, meu tempo é precioso. E, acreditem: o de vocês também.
- Por que você mesmo não assassina essas mil pessoas? – perguntou Maross, soltando Ezamyr – Imagino que você deva ter poder suficiente para isso, não?


A demora da resposta para vir, e a visível hesitação de Ahfrak nos poucos segundos que levou para dizer algo eram tudo que Dyrdosh e Maross precisavam para confirmar suas suspeitas.


- Não posso tirar vidas. Sigo um juramento que não me autoriza a fazer isso – respondeu o arquigênio, com a voz claudicante.
- Pensei que seu juramento o impedisse também de fazer muitas coisas. Como, por exemplo, avisar-nos do perigo. Ou estou enganado?


Os olhos de Ahfrak faiscaram com mais intensidade. 


- Meu tempo é precioso demais para ser desperdiçado com seres inferiores incrédulos. Voltarei aqui na próxima virada de lua, e espero que até lá vocês tenham tirado as vidas necessárias para salvar incontáveis outras. 


Um clarão mesclado a uma fumaça, envoltos a cheiro de enxofre e labaredas intensas gerou uma explosão súbita. E o arquigênio sumiu. Yana ficou pálida e caiu. Ezamyr resfolegou e embainhou novamente sua arma. Dyrdosh deu um soco violento na parede.


- Espero que nenhum de vocês esteja realmente cogitando a possibilidade de assassinarmos pessoas inocentes – disse Ezamyr.
- Ele estava mentindo. O maldito veio aqui tentar nos enganar – disse Maross.
- Os arquigênios não têm direito a interferir no curso dos acontecimentos dessa forma. Mas, infelizmente, não sei como usar isso contra ele – era Dyrdosh – No entanto, ele nos explicou muita coisa, e naquilo ele não mentiu.


Maross acudia Yana, que voltava a gritar e se debater, como que novamente tragada a um pesadelo. Dyrdosh começou a apalpar o próprio corpo, tentando encontrar alguns pertences que trazia escondido em suas roupas. 


- Quanto tempo até a próxima virada de lua? – ele perguntou em um sussurro, mais para si mesmo que para os outros.
- O que tem em mente, Dyrdosh? – Ezamyr perguntou.
- Não é maravilhoso, amigo? – o mago sorriu – Você tanto falou sobre Moreito, e será justamente ele, ou melhor, os servos dele que nos salvarão."

CONTINUA...

sábado, 31 de março de 2012

A Revolta dos Gênios - Parte 2 de 7

Olá, amigos. Hoje trago a vocês a sequência da saga "A Revolta dos Gênios".

Espero que apreciem e comentem

A Revolta dos Gênios - Parte 2

"A Morada da Magia era o que os acadêmicos do mundo material costumavam chamar de um “semiplano”. Uma dimensão à parte, um mundo específico, limitado, restrito por grossas camadas das membranas espirituais que separavam os múltiplos planos da existência.
Sua origem era desconhecida, bem como a da maioria dos outros mundos existentes. Ninguém sabia se era uma criação dos deuses, de apenas algum deles, ou se sempre existira, sendo resultante do acúmulo das energias presentes em todo o universo. Também não se sabia exatamente há quanto tempo existia, nem qual sua extensão. Poderia ter milhares de anos-luz de leste a oeste, como poderia ser diminuto de norte a sul. Não havia como ter certeza.
O pouco que se sabia, e ainda assim aquilo era motivo de constante controvérsia, era que a Morada da Magia era o lar de incontáveis criaturas consideradas mágicas – sendo este o motivo de ter recebido esse nome dos acadêmicos de Adalahar. Uns acreditavam que a quantidade absurda de energia arcana naquele semiplano era o motivo da existência daqueles seres, enquanto outros achavam que aquela era uma conseqüência de o mundo estar infestado de raças impregnadas por magia.
Quanto à variedade de seres, a Morada da Magia superava até mesmo as mais ricas faunas dos bosques e florestas de toda a Adalahar. Unicórnios com três chifres, corujas feitas de sombra, dragões diminutos com mais de um par de asas, fadas gigantescas, cujo tamanho excedia as centenas de quilômetros, sereias voadoras, lobos sobre dois pés, empunhando espadas eram apenas alguns dos mais exóticos exemplos do que podia ser encontrado lá.
Não havia guerras, nem disputas por poder. Em verdade, não havia lideranças, muito menos motivo para a existência delas. A mentalidade daquelas criaturas era totalmente anárquica, todos eles sendo incapazes de compreender o conceito de autoridade e obediência. Exceto uma raça.

Os gênios.

Por incontáveis eras (ou por todo o tempo de existência que aquele semiplano realmente tinha) não houve problemas, nem nada que ameaçasse a paz arcana e caótica da Morada da Magia. Os gênios tinham uma natureza mais instável que as demais criaturas que lá habitavam, mas isso nunca provocou nenhum tipo de turbulência na ordem natural das coisas.
Entretanto, acontecimentos misteriosos, cujas causas e conseqüências iam além da compreensão dos simples mortais, começaram a provocar terríveis perturbações nas membranas que separavam os mundos. Aquilo, se continuasse, geraria um desastre de proporções cósmicas que refletiria no plano material.

Em Adalahar.

Estava ao alcance dos gênios – e apenas deles – impedir que aquilo se transformasse em uma tragédia. E era exatamente isso o que estava sendo discutido naquele momento.

- Adiantará alguma coisa haver caos em uma pequena parcela daquele mundo? Se a intenção é a destruição ou a conquista do local, não seria mais fácil uma ação em larga escala? Uma invasão? Uma guerra?
- Certas coisas estão além de nosso poder de decisão. Lembre-se que os arquigênios, louvados sejam, são desprovidos do livre-arbítrio. Não podem simplesmente tomar providências que resultassem no fim de um plano da existência.
- Mas a eles ainda cabe o direito de se omitir. Eles só precisariam agir em defesa do mundo ameaçado se estivessem presos à servidão por algum mortal que lhes ordenasse isso. Como não é o caso, eles simplesmente farão aquilo que melhor fazem: observar tudo de longe, e aguardar que as coisas sigam seu curso natural. O que questiono é se isso será o suficiente.
- Não há como termos certeza. Há, no entanto, o problema de que talvez essa crise não esteja condenando apenas o mundo material, mas também o nosso.
- O nosso?
- Os mundos parecem estar se amalgamando. A quantidade absurda de energia arcana pode condenar o mundo material, mas uma excessiva “ausência de magia” nos condenaria também. E se isso acontecesse, os arquigênios também não poderiam interferir.
- O que nos resta então?
- Fazer o que melhor sabemos fazer quando não estamos a serviço de um amo: observar, e aguardar que as coisas aconteçam como devem acontecer.

***

Maross vomitou até ficar pálido. Ezamyr, por alguns minutos, viu tudo de cabeça para baixo. Yana não conseguiu enxergar por algum tempo, recuperando a visão apenas após Dyrdosh tentar várias vezes curá-la com magia. Já as tentativas de usar energia arcana para limpar a sujeira provocada por Maross falharam tanto, que o mago desistiu.

- Por que disse que morreríamos? Afinal, o que aconteceu aqui? – Ezamyr perguntou, vendo três “Dyrdoshs” em sua frente.
- Quando eu disse que iríamos morrer, não me referia apenas a nós três. Quis dizer que nosso mundo... Está condenado. Nosso mundo morrerá.

Yana já enxergava. Seu corpo começou a ficar mais e mais quente. A garota suava além do normal, além do controle, além do que achou que poderia suportar. Maross tentou segurá-la para lhe perguntar o que estava havendo, mas se desequilibrou e caiu. Ao lado de Ezamyr, abriu-se um tipo vórtice, um portal dimensional. O sacerdote colocou o braço ali, e não mais o sentiu, nem conseguiu ver para onde ele tinha ido. Ao puxá-lo, ele voltou normalmente.

- Alguma coisa aconteceu na Morada da Magia. Alguma coisa...
- Alguma coisa? – Ezamyr perguntou, tendo a impressão de estar vendo tudo da cor azul.
- Alguma coisa está tragando a Morada da Magia para nosso mundo. Alguma coisa...

Dyrdosh desmaiou. Yana começou a vomitar, e acabou cuspindo fogo também. Maross teve alucinações, Ezamyr perdeu a memória por alguns instantes. Todos ouviram trovões. Nevou por alguns minutos. Em seguida, a cabana desabou sobre eles. O mal-estar misterioso foi diminuindo. A cada minuto algo sobrenatural acometia um deles. Até mesmo manter uma conversa era difícil.

- O que podemos fazer? – Ezamyr disse, não tendo certeza se havia se expressado no idioma correto.
- Por hora, apenas sobreviver. Pode parecer fácil, mas não será. Se conseguirmos... Se conseguirmos... Honestamente, não sei o que fazer.

Uma explosão imensa foi ouvida. Yana gritava, mas em meio àquela loucura, nada mais surpreendia. Foi preciso que ela continuasse gritando por longos minutos para que todos olhassem para ela e vissem.

Uma estranha entidade extraplanar estava tentando estabelecer contato."
Continua...

sábado, 17 de março de 2012

A Revolta dos Gênios - Parte 1 de 7

Saudações cordiais, estimados apreciadores de literatura fantástica, RPG e assemelhados. Hoje lhes trago o início de uma nova saga. Os personagens... bem, os personagens não serão difíceis de serem lembrados por vocês.

Espero que apreciem e comentem.

A Revolta dos Gênios - Parte 1

"- Sempre achei que Dalieh fosse o reino mais intimamente ligado à magia. Até onde ouvi os bardos contarem, era lá que ficavam os magos mais poderosos, encastelados em suas torres, debruçados sobre seus pergaminhos e grimórios.
- E você está certa, Yana – disse o novo amigo.

Os quatro caminhavam sobre os campos encharcados que separavam a modesta Daanayrna da imponente Buurlik. Após uma cansativa viagem do reino Yanzakar até ali, nenhum deles parecia mais ter forças para reclamar. Outras tantas chuvas torrenciais os tinham atingido no percurso, que até a vontade de praguejar havia ficado para trás. Agora estavam no reino de Yrlahn e isso era tudo o que bastava.
O novo amigo, Dyrdosh, juntara-se a eles após um episódio nada pacífico em que todos tiveram que unir suas forças para derrotarem um grupo de bugbears. Dyrdosh era um mago, embora não parecesse ter a disciplina e o amor pelo estudo que seus pares costumavam demonstrar. Era mais instintivo, mais despreocupado, e gabava-se de fazer uso das energias arcanas existentes em abundância no ambiente.
Embora o julgasse mais falastrão do que o necessário, Maross apreciava o novo companheiro, principalmente por ele proporcionar à sua irmã algumas boas horas de conversa. Isso evitava que o próprio Maross tivesse que dar atenção a Yana. Ezamyr não concordava muito com as teorias malucas sobre magia que o mais recente colega apresentava, mas não se manifestava. Em verdade, achava fascinante conhecer outros pontos de vista sobre aquele assunto.

- Dalieh é o reino da magia disciplinada, dominada pelo estudo e pelo conhecimento teórico. É o lar dos alquimistas, dos grimórios extensos e empoeirados, das bibliotecas e laboratórios cheios de componentes mágicos. É um local em que uma forte cultura arcana está enraizada desde os primórdios da civilização. Lá, a magia está fortemente ligada ao estudo. É preciso se esforçar e merecer ser um mago para se tornar um. O mesmo não ocorre aqui.

A chuva dava uma trégua. O brilho no olhar de Yana era fascínio, não o reflexo de gotas de água.

- Yrlahn é o lar da magia natural, da magia canalizada e retirada do ambiente pela sensibilidade e pelo instinto. Aqui não se estuda magia, aqui se sente magia. Todo o reino tem uma ligação sobrenatural com um outro plano da existência denominado “Morada da Magia”. Há quem acredite ser um mundo habitado pelos deuses, mas o que ele realmente é, não importa. Basta-nos saber que toda Yrlahn é fortemente influenciada pela presença das forças arcanas vindas de lá. Aqui, para ser um mago, basta ter a sensibilidade necessária para captar a magia, tornar-se uno com ela e dominá-la. Sem estudos. Sem teoria.

Yana sorria, como se apaixonada. Não pelo seu interlocutor, mas por suas palavras elucidativas. Maross chegou a bocejar de “empolgação” ao ter ouvido tudo aquilo. Ezamyr pensou em contra-argumentar, porém sabia que havia um fundo de verdade nas palavras de Dyrdosh. Era perceptível que havia algo de sobrenatural no ar, no ambiente e em todos os seres vivos de Yrlahn. Até a chuva parecia ter algo de mágico em suas gotas frias.

- Não nos contou ainda o que fazia perto da fronteira com o reino de Yanzakar – era Ezamyr, disposto a interromper as explicações acadêmicas do colega – Nem o motivo de seu regresso à Yrlahn.
- Não sei se minha explicação vai parecer satisfatória, mas a verdade é que, às vezes, sou tomado pelo impulso aventureiro de sair em viagem sem nenhuma pretensão maior que enfrentar alguns desafios e depois retornar ao meu lar.

Pela primeira vez, Maross sorriu.

- Não importa qual foi seu motivo. Para mim, só importa que estou aprendendo muito com você – disse Yana, sorrindo como se não estivesse voltando a chover forte sobre sua cabeça descoberta.
- E aprenderá muito mais se seus amigos aceitarem minha oferta de passarem os próximos dias em minha casa. É uma construção modesta, mas muito aconchegante. Lá, vocês estarão próximos aos principais estabelecimentos da cidade, caso precisem comprar alguma coisa, além de estarem a poucos minutos da estrada que leva ao sul, caso queiram sair de Buurlik.
- Uma oferta que o bom-senso nos obriga a não recusar – disse Ezamyr – Mas não pense que vamos aceitá-la apenas por conveniência ou para nos aproveitarmos de sua generosidade. Nós três realmente gostamos de você e apreciamos sua companhia.

Mais duas horas de caminhada foram necessárias até que chegassem à residência de Dyrdosh. Era uma construção realmente modesta, feita apenas de madeira extraída da região. Uma janela e uma porta, abertas, davam as boas-vindas a Ezamyr e seus amigos.

- Não há nada de valor que justifique trancá-las – explicou Dyrdosh.

O interior da casa revelava que ela era pouco mais que uma choupana. Uma lareira discreta decorava a junção entre duas paredes, iluminada por uma diminuta labareda levemente azulada que não se apagava. No canto oposto, um pequeno armário, também de madeira, encontrava-se aos pés de uma cama encimada por um colchão que parecia ser de uma estranha mistura de palha e penas. Imediatamente à esquerda, uma portinhola levava à latrina, onde havia também uma tina cheia de água.

- Não estranhem o fato de meus pertences serem modestos – o anfitrião se antecipou às prováveis perguntas que seus convidados certamente se sentiriam constrangidos demais para fazer – Como disse anteriormente, a quase totalidade das atividades cotidianas eu faço usando a magia abundante no ar. Eis porque não recorro a mais objetos materiais para um maior conforto.
- Sei que posso parecer indelicado – disse Maross – mas não posso deixar de lhe perguntar: onde nós dormiremos?

Ezamyr e Yana olharam para ele com olhar de reprovação. A não existência de mais camas ou colchões e a ausência de um espaço físico suficientemente grande para que deitassem no chão havia deixado dúvidas neles também. Entretanto, dizer algo como “Estou com sono” e esperar que Dyrdosh explicasse onde dormiriam parecia mais polido.

- A magia também se encarregará disso – disse o anfitrião, tentando, com um sorriso, deixar claro que a pergunta não o tinha ofendido.

E passaram o resto da noite ouvindo histórias sobre como a energia arcana da região era a força de trabalho de toda a cidade e de parte significativa do reino. Dyrdosh lhes contou sobre o pequeno número de estradas da região, visto que os moradores usavam meios mágicos para percorrerem grandes distâncias, contou como a clarividência permitia aos agricultores prever se o clima era ou não favorável às colheitas e até explicou como parte da milícia usava poderosos feitiços para antever certos crimes e evitá-los.
Yana a tudo ouviu com admiração e olhos brilhantes. Ezamyr o fez com moderado interesse. Maross não disfarçou o sono e só ouviu a conversa até o momento em que não resistiu e adormeceu.

***

- O que aconteceu, Dyrdosh? – disse Ezamyr, o coração prestes a sair pela boca, devido ao susto.
- Não sei. Mas acho que vamos morrer!"

Continua...

sábado, 10 de março de 2012

A queda dos feiticeiros - PARTE 4 DE 4

Olá, amigos.

Com um atraso que não pretendo repetir, lhes trago a última parte de "A queda dos Feiticeiros". Para compensar a demora em publicar o final, a postagem de hoje é um pouco mais extensa que o normal.

Espero que apreciem e comentem.

A queda dos Feiticeiros - FINAL

"Ezamyr rezava para Moreito. Pedia justiça, força e sabedoria. Coragem, resignação e esperança. Recitava palavras decoradas e as intercalava com súplicas vindas de seu coração. Ao fundo, o som dos familiares do barão chorando pela destruição de parte significativa da propriedade. Mesmo a quilômetros de distância, era possível sentir também a dor antecipada das famílias envenenadas pelas Sementes do Inferno Negro. Por eles, por si mesmo e por seus colegas batalha, Ezamyr orava com fervor.
Yana e Maross estavam em um canto do grande casarão do barão, aceitando ofertas de alimentos e recusando o vinho que lhes chegava. A intenção deles era sair daquele ambiente de tristeza o quanto antes. Queriam agir, batalhar, encontrar os culpados por tudo aquilo, destroçar seus corpos e encaminhar aos deuses as suas almas. Ali, parados, em meio ao clima de desolação e luto, sentiam-se inúteis.
Gollean havia orientado todos a aguardarem, pois uma mensagem tinha sido enviada à coroa de Yanzakar. Antes de definirem qualquer coisa, esperariam um posicionamento de Sua Majestade. Até onde se sabia, ela estava reunida em conselho.

- A Rainha sabe da urgência da situação. Não tardará a nos dizer o que fazer – ele dizia frequentemente, tentando conter a impaciência dos colegas.
- Onde está Garvyn? – perguntou Ezamyr, após orar até os joelhos arderem.
- Ele está em outro lugar, não muito distante daqui. Ele vai desempenhar um papel importantíssimo nessa batalha.

A propriedade era extensa e havia além dos mais distantes celeiros que armazenavam as colheitas uma pequena colina. Ainda fazia parte das terras do barão, mas poucas pessoas iam até lá, simplesmente por não haver nada lá para de fazer. Daquela elevação era possível ver parte significativa da cidade e até um pouco mais que isso. Muitas estradas por onde passavam os alimentos comercializados ficavam visíveis daquele ponto. No entanto, o motivo de Garvyn estar ali era outro.
Os olhos mantinham-se fechados e um vento moderadamente forte soprava, desalinhando seus cabelos e fazendo mais que isso. A brisa tinha algo de sobrenatural. O mago sentia a energia arcana ser trazida e levada pelas correntes de ar com suavidade, e tentava captar sua origem. Durante a batalha contra Ortoroth e Baalok, Garvyn havia sentido um padrão mágico bastante específico. Um padrão que ele poderia identificar, se houvessem outros similares nas proximidades.
Ele já estava lá havia pelo menos uma hora. Liberando sua energia e pedindo em troca a do ambiente. Sentindo as vibrações arcanas e tentando localizar onde poderia haver mais criaturas com aquele padrão. Tentando localizar onde se escondiam os outros Feiticeiros do Inferno Negro. Em dado momento, seus olhos se abriram. Um raro sorriso brotou em seu rosto sisudo. O vento soprou com menos intensidade.

Ele havia descoberto.

***

O grupo que chegou era impressionante. Ao menos trezentos indivíduos trajando armaduras prateadas de aço esmaltado, empunhando espadas bastardas e usando os imponentes elmos de duas cabeças – uma das mais tradicionais peças de guerra do reino. A esses guerreiros da coroa, somavam-se uma multidão de aventureiros que haviam sido convocados às pressas.
A Rainha Wendy anunciara que Yanzakar declarava guerra à Ordem dos Feiticeiros do Inferno Negro e conclamava todos os guerreiros, paladinos, feiticeiros, ladinos, monges e pessoas de bem capazes de lutar a unirem-se na investida maciça que estava sendo organizada. Bardos, viajantes e dezenas de pessoas comprometidas com a paz se encarregaram de espalhar a notícia. Em poucas horas, já havia sob as impressionantes muralhas do castelo real um contingente assombroso de valentes indivíduos dispostos a acabar com aquela vil ameaça.
Eram aventureiros de todos os tipos: feiticeiros de vestes rasgadas e tatuagens místicas colorindo seus corpos seminus; magos ocultos por andrajos esfarrapados e se apoiando com a ajuda de cajados encimados por cristais que rutilavam sem cessar; paladinos exibindo seus símbolos sagrados sobre seus corcéis brancos; cavaleiros errantes munidos apenas de coragem e armas comuns. Monges de cabeça raspada e olhos de cores diferentes; mercenários de armaduras gastas e olhares interesseiros; escudeiros jovens, ansiosos por glória; guerreiros humildes protegidos por modestas cotas de malha. Sacerdotes de Moreito, o deus da justiça, e de Sandy, a deusa da bondade. Não havia limites para a variedade de indivíduos, nem distinção entre eles. Ali, naquele momento, o mais humilde camponês armado com uma adaga enferrujada tinha tanto valor quanto o mais graduado capitão da guarda da Rainha Wendy.
O barão, Ezamyr e os demais recepcionaram Sua Majestade com a devida reverência, mas não houve tempo para muitas formalidades. Todas as informações disponíveis foram compartilhadas. Não tardou para que Garvyn chegasse apressado, com o semblante sisudo ainda mais sério, provavelmente abalado por alguma notícia ruim.

- Eles estão em movimento. Devem ter percebido que os localizei e agora estão fugindo.
- Nesse caso, vocês devem partir no encalço deles imediatamente! – a Rainha respondeu.

Maross ficou tentado a perguntar para a monarca o que aconteceria com as pessoas já contaminadas com a Semente do Inferno Negro, mas achou melhor deixar aquilo para depois. O barão desejou sorte ao grupo, os clérigos presentes fizeram curtas preces às suas divindades e todos partiram, tão organizados quanto puderam.

- Boa sorte, meus guerreiros! – a Rainha pensava em voz alta – E que os deuses me perdoem pela decisão que tomei!

***

Um deles tinha aparência de demônio. Faces iguais às dele certamente já povoaram pesadelos infantis em noites de tempestade ou tiraram o sono de jovens em madrugadas de lua cheia. O rosto era uma grossa camada de pele avermelhada repleta de rusgas e protuberâncias desencontradas. A língua salivava um líquido vermelho viscoso, a testa era adornada por dois chifres e o que preenchia os globos oculares eram apenas malévolas luzes rubras bruxuleando sem parar. O monstro tinha uma cauda grossa, músculos desproporcionais, patas com três dedos e braços que terminavam em garras tão afiadas quanto lâminas de aço. Seu nome era Crograrr, e ele fora o primeiro Feiticeiro a ser interceptado pelas forças do reino.
Suas garras rasgaram o aço das armaduras como se fosse papel, mas os ataques seguintes foram interceptados por habilidosos guerreiros. Armas apararam garras com maestria, enquanto mais e mais lutadores se aglomeravam tentando atingí-lo. Três tombaram, feridos pela movimentação feroz e inesperada de sua cauda. Um sacerdote gritou pela glória de seu deus, mas isso não enfraqueceu o Feiticeiro. Dois magos arremessaram finos raios de coloração esmeralda, visando enfraquecer o inimigo, mas um brilho repentino do corpo do monstro mostrou que a criatura não seria ferida por truques tão simples.
Aço e garras se encontraram várias e várias vezes sem que um deles levasse qualquer vantagem aparente. Guerreiros recuaram, possibilitando que conjuradores arcanos atacassem com magias mais agressivas. Fogo e gelo elementais foram disparados, ácido foi arremessado e energia positiva também foi lançada. Uma explosão se seguiu, e quando a poeira baixou, a criatura sangrava. Pouco.
Os olhos vermelhos foram se enrubescendo mais e mais, até o ponto que a luz rubra partiu em direção aos inimigos na forma de um poderoso raio. Quatro guerreiros e um mago caíram sem vida.

- Não pensem que sou tão fraco quanto Ortoroth ou Baalok.

Três magos desenhavam um círculo místico no chão. Usando restos de sangue e um estranho pó amarelado que traziam consigo, foram rabiscando uma estrela de nove pontas. Em seu interior, desenhos que obedeciam a padrões intrincados. Riscavam, apagavam e refaziam várias vezes o círculo e seu conteúdo interior, até sentirem que estava perfeito. Enquanto isso, a espada sagrada de um paladino rasgou o couro apodrecido que circundava a carne profana do Feiticeiro e fez a criatura urrar.
Os magos gritaram, gritaram e gritaram mais, até o círculo místico brilhar e tornar-se uma redoma de fogo. Os gritos seguintes foram para que todos se afastassem, e as chamas arcanas engolfaram Crograrr e tentaram consumi-lo. A criatura lutou contra as labaredas. Seus olhos brilharam com mais intensidade, em uma clara demonstração de que estava usando magia. O fogo foi se apagando aos poucos, enquanto o Feiticeiro arfava e resfolegava, enfraquecido e vulnerável.
Espadas choveram sobre seu corpo, rasgando, perfurando e agredindo. Sangue jorrou por todos os lados e seu último grito quase ensurdeceu seus assassinos. O corpo sem vida foi se desmaterializando, mas não houve comemoração. Não muito adiante, outros três Feiticeiros lutavam ferozmente contra mais guerreiros e magos.

***

Erith e Muldohr combinavam suas habilidades sobrenaturais, como se acostumados a lutarem juntos. Um entrava em combate corporal, enquanto o outro dava suporte emitindo cusparadas amaldiçoadas, que transformava oponentes em pedra. O primeiro usava a habilidade arcana de enrijecer os músculos inimigos, enquanto o segundo rasgava com suas garras os corpos parcialmente paralisados.
Defendiam-se da mesma forma. Globos de proteção mágica de Erith os circundavam e protegiam dos conjuradores inimigos, ao mesmo tempo em que ataques com espada eram bloqueados e revidados pelas garras e pela cauda de Muldohr. Yana e Maross estavam entre os que os atacavam sem trégua, sem estratégia, sem medir as conseqüências.
Ezamyr e tantos outros combatiam o último Feiticeiro: Raymaron. As preces e os gritos de “Pela justiça! Por Moreito!” não intimidavam o inimigo. Muitos paladinos imbuíam suas lâminas com energia positiva, tornando seus ataques mais efetivos. O maldito Feiticeiro parecia ser vulnerável à força dos deuses, mas atingí-lo era muito difícil. Suas habilidades de combate eram impressionantes.
Próximos dali, Maross e Gollean atacavam em uníssono, acompanhados pelas espadas sedentas de sangue de incontáveis outros. Faiscantes relâmpagos também voavam em direção aos Feiticeiros, mas não pareciam estar sendo bem-sucedidos. Já havia guerreiros mortos o bastante para uma eternidade de luto e outros tantos iam caindo sem que Erith e Muldohr fossem sequer feridos.
Até que chegou Garvyn.

Sua presença intimidadora foi o bastante para que os demais defensores do reino se afastassem. Todos deram passos para trás, até posicionarem-se de forma a deixar o mago frente a frente com os temíveis Feiticeiros. Os desgraçados sorriam e pareciam planejar algum tipo de ataque. Contra eles, uma poderosa ofensiva também estava sendo preparada.
Garvyn esticou o braço esquerdo, a palma da mão voltada para cima. Sobre ela, uma pequena bola de energia translúcida foi surgindo. À medida que o mago franzia as sobrancelhas, a energia ia faiscando, crescendo e tornando-se negra. Todos olhavam embasbacados o poder mágico aumentar a ponto de não caber mais na mão de Garvyn. Quando a bola de energia arcana tornou-se do tamanho de uma rocha, ela avançou velozmente em direção a Erith e Muldohr, sem lhes permitir esquiva ou defesa.
Uma gigantesca explosão arremessou muitos corpos ao chão e poeira subiu e dominou o ambiente por longos minutos. Quando foi possível enxergar novamente, não havia mais Feiticeiros. Apenas manchas negras e sinais de fogo recém-apagado no chão. Os demais conjuradores do grupo sentiam que a aura maligna dos Feiticeiros havia desaparecido para sempre.
Todos voltaram sua atenção para a batalha contra o último Feiticeiro, mas, para a alegria de muitos (e tristeza de uns poucos), ela já tinha acabado. Raymaron fora derrotado pelo ataque conjunto de vários paladinos – e de Ezamyr também. Antes de se considerarem realmente vitoriosos, os magos presentes procuraram emanações mágicas semelhantes às dos Feiticeiros do Inferno Negro e nada encontraram.

O reino de Yanzakar havia vencido.

***

Houve júbilo quando o grupo regressou até a presença da Rainha. A comemoração foi tímida, pois muitas vidas haviam sido perdidas. Sua Majestade, que tinha sido evasiva cada vez que alguém lhe perguntava sobre o aconteceria com as pessoas contaminadas, precisou revelar que aquelas vidas inocentes tiveram que ser sacrificadas. Com lágrimas nos olhos, a monarca relatou que não poderia permitir que um mal tão terrível voltasse a assolar Yanzakar. Disse que se sentiria eternamente culpada e que tinha consciência de que os deuses não a perdoariam.
Ninguém questionou a decisão de Sua Majestade abertamente, mas a pressa com que muitos guerreiros fiéis saíram de sua presença discretamente sem se despedir mostrava claramente a insatisfação da maioria esmagadora dos presentes.
Ezamyr, Maross e Yana eram alguns deles. Ezamyr orou a Moreito, suplicando por força para impedir que tragédias como aquela voltassem a ocorrer. Pediu que recebesse com alegria aquelas almas. Yana chorou por alguns dias pela morte daquelas pessoas. Não as conhecia, mas isso não bastou para que se sentisse indiferente àquela desgraça. Até mesmo Maross, com seu coração empedernido, mostrou-se solidário à tristeza de sua irmã e a consolou vez por outra.

E assim, os três seguiram com sua jornada por Adalahar, cientes de que ainda havia muito a ser feito antes que lágrimas como aquela parassem de ser derrubadas."

Essa não continua mais...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A queda dos feiticeiros - PARTE 3 DE 4

Meus respeitos, estimados amigos. Trago a vocês com satisfação a continuação da saga "A queda dos Feiticeiros". Espero que apreciem e comentem.

A queda dos feiticeiros - Parte 3

"- Nada?

Gollean, Ezamyr, Yana, Maross e outros vinte guerreiros aguardavam com ansiedade a resposta. Tempo demais já havia sido perdido.

- Há uma minúscula perturbação na aura mágica da região – Garvyn respondeu – Estou tentando identificar com exatidão o local de origem para que possamos averiguar.
- E isso demora muito?
- Dependerá de quanto tempo levará para que vocês façam silêncio absoluto.

Mais apreensão. Garvyn localizou, com algumas demora, o provável local onde os Feiticeiros do Inferno Negro agiam. E então partiram.
Era uma gigantesca lavoura. Uma imensa variedade de alimentos era cultivada ali. As terras pertenciam a um poderoso barão que comercializava seus produtos com boa parte do reino de Yanzakar. Sem prestar muita atenção foi possível identificar uvas, arroz, cebolas-verdes, trigo, soja, milho, rabanete, mandioca, batatas amargas e melões-de-Yanzakar. Um olhar atento provavelmente revelaria a existência de uma variedade muito maior.
O grupo chegou velozmente ao local, sendo imediatamente abordado por homens armados a serviço do proprietário das terras.

- Peço a gentileza de se identificarem – disse aquele que parecia ser o líder – Não é comum recebermos visitas de pessoas portando espadas.
- Sou Gollean, chefe da milícia da cidade. Estes são meus homens, aqueles três – apontando para Ezamyr, Yana e Maross – são aliados temporários e esse aqui – indicando Garvyn – você não vai querer saber quem é.
- Em que podemos ajudá-los? Nosso senhor não se encontra na propriedade no momento e me deu autoridade para resolver em nome dele qualquer eventual problema.
- Temos informações de que suas lavouras podem estar sendo, ou ter sido envenenadas por feiticeiros. Viemos investigar e impedir.

O guarda fez uma expressão de surpresa.

- Não vou impedi-los, já que vieram com bons propósitos, mas ressalto que o que dizem é extremamente improvável. Nossas plantações são muito vigiadas, e ninguém entra aqui sem ser identificado.
- Estamos falando de criaturas com habilidades mágicas. Certamente elas devem ter formas de escapar à sua vigia.

A chegada do grupo atraiu para eles os olhares curiosos dos trabalhadores. Muitos camponeses diminuíram o ritmo do trabalho para contemplarem a passagem daqueles poderosos homens da lei em suas armaduras garbosas. Outros tantos ficaram preocupados, pois tinham consciência de que a presença deles ali só poderia significar problemas. Um agricultor chegou ao ponto de correr em direção a Gollean e lhe dizer que seu filho queria ingressar na milícia da cidade. O homem ainda perguntou como deveria proceder e se Gollean voltaria lá no outro dia, pois se assim fosse, ele traria seu filho para que se conhecessem.

- A perturbação na energia mágica do local está se tornando mais intensa aqui – Garvyn surpreendeu a todos.
- Você consegue descobrir se os Feiticeiros estão aqui ainda?
- Se houver silêncio, essa possibilidade existe.

O mago manteve a concentração tanto quanto as conversas altas dos trabalhadores ao seu redor permitiram. Após alguns segundos que para ele pareceram breves, e para seus colegas duraram uma eternidade, ele abriu os olhos novamente.

- Essas lavouras... Todas elas... Já foram contaminadas...
- Eu sabia que tínhamos perdido tempo demais – Maross vociferou.
- Calma, irmão – era Yana – Ainda deve ser possível fazer alguma coisa.
- Garvyn, o poder mágico que contaminou as lavouras pode ser anulado?
- Não!
- Então vamos incendiar essas terras imediatamente – disse Maross, já retirando uma pederneira de sua mochila.
- Espere! – Gollean se interpôs – Não podemos fazer isso sem a autorização do dono dessa propriedade.
- Para o inferno com a autorização. O que quer que digamos a ele? “Por gentileza, podemos acabar com sua comida envenenada antes que seus compradores morram”?
- Calma, Maross – foi a vez de Ezamyr se manifestar – Moreito tem o poder de fazer a justiça triunfar e isso irá acontecer, eu tenho certeza.

Discutiram acaloradamente até que conseguiram, com imensa relutância, elaborar um curso de ação que agradou a todos. Cinco soldados escoltariam o capitão da guarda da propriedade até onde o barão se encontrava para lhe explicar a situação e conseguir autorização para incendiar a terra. Outros dez soldados saíram para investigar e descobrir com calma as rotas para onde os alimentos possivelmente contaminados foram vendidos. Os outros cinco soldados, Ezamyr, Yana. Maross, Garvyn e Gollean tentariam encontrar os Feiticeiros.
Garvyn, subitamente, saiu em desabalada carreira em direção a dois camponeses que se encontravam sentados à sombra de uma videira. O mago balbuciou qualquer coisa enquanto corria e estendeu as mãos em direção aos dois, gerando uma estranha luz que atingiu os corpos daqueles trabalhadores. Ambos fizeram uma expressão de dor, que foi substituída por um semblante de fúria, e logo o próprio rosto humano deu lugar a uma face hedionda repleta de chifres e carne ensangüentada.

- Deveriam ser mais capazes de se ocultarem – Garvyn disse, sendo rapidamente alcançado pelos colegas.

Ortoroth e Baalok logo ficaram de pé.

- Somos a Ordem dos Feiticeiros do Inferno Negro. Não temos porque temermos criaturas inferiores como vocês.
- Vou perguntar apenas uma vez antes de mandar vocês para o inferno: como fazemos para curar as pessoas contaminadas? – questionou Maross, com a impaciência característica.
- Não fazem – respondeu Ortoroth, os lábios contorcendo-se no que parecia ser um sorriso – Aqueles que já tiverem se alimentado terão ingerido as Sementes do Inferno Negro. Mesmo que eles não se transformem em Filhos do Inferno Negro, eles já terão dentro de si a Semente. Seus filhos, os filhos de seus filhos e todas as próximas gerações nascerão como Filhos do Inferno Negro. Enquanto essas pessoas contaminadas viverem, a reprodução de minha espécie estará assegurada – e gargalhou.
- E se matarmos as pessoas contaminadas? – Gollean perguntou.
- Pensei que vocês fossem heróis... – Baalok os ironizou.
- Guarde seus pensamentos para você. E se matarmos as pessoas contaminadas?
- Nesse caso, o surgimento de novos Filhos do Inferno Negro não seria possível.
- Gollean! Não podemos assassinar as pessoas. Moreito não aprovaria! – bradou Ezamyr.
- Falaremos sobre isso depois – o chefe da milícia respondeu.

E brandiu sua espada.

***

O soldado da milícia sentiu asco ao segurar a lâmina repleta daquele líquido viscoso, muito embora aquilo provavelmente fosse o “sangue” de Ortoroth. O aço rasgava a couraça flatulenta do Feiticeiro com incrível facilidade. Várias estocadas o perfuraram, talhos foram abertos e um pedaço da cauda dele foi rasgado.
Baalok usava subterfúgios mágicos para não ser atingido pelas armas. Divertia-se ao ver os agricultores próximos dali correrem desesperados, enquanto usava um poderoso campo de força arcano para conter as lâminas de Maross e Gollean. Garvyn tartamudeava sílabas e sílabas, mas parecia nunca terminar as palavras de invocação a que todos aguardavam. Ezamyr invocou o poder de Moreito, o poder da justiça, a força sem par oriunda dos céus que fazia o bem sobrepujar o mal. Sua espada reluziu com grande intensidade, mas não conseguiu trespassar a barreira mística de seu oponente.
Ortoroth levava a pior na batalha corpo-a-corpo. Suas garras tinham que aparar o ataque de muitas espadas ao mesmo tempo, e ele acabava inevitavelmente sendo atingido por pelo menos duas ou três delas quase a todo instante. Aproveitou a proximidade que tinha de seus adversários e cuspiu. Era um líquido corrosivo, de coloração púrpura e razoável consistência. Parecia ácido, mas devia ser algo pior, pois corroeu armadura, corroeu tecido, corroeu carne, corroeu ossos e depois corroeu o cadáver. Dois guerreiros morreram atingidos pela substância.
Os demais recuaram. Nenhum deles tinha armas de ataque à distância, nem certeza se poderiam derrotar o inimigo com um golpe fulminante antes de serem atingidos por ele. Ortoroth começou a gargalhar. Deu um passo para frente, seus inimigos um para trás. Mais um passo e mais um recuo de seus oponentes. Dois soldados fugiram – e um deles ainda teve de tentar conter um agricultor que queria ajudar no combate armado com uma enxada.
Garvyn vociferou algo e uma enorme quantidade de fogo partiu da junção de suas duas mãos. O magma arcano rompeu a barreira mágica e incinerou Baalok. O mago ficou alguns segundos resfolegando. Nesse meio tempo, as espadas de Ezamyr, Maross e Gollean se encarregavam de ceifar a vida do Feiticeiro.
Ortoroth cuspiu seu ácido em Garvyn, que parou a substância no ar com um leve movimento dos dedos. O aço dos guerreiros voltou a rasgar a pele do Feiticeiro, que não conseguiu resistir muito tempo. Yana deu o golpe final, uma violenta estocada na região em que deveria ficar o coração. O miasma enfastiante que maculou o ar não deixou dúvidas de que os dois Feiticeiros do Inferno Negro estavam mortos.
Minutos mais tarde, os soldados voltaram com o barão. Em lágrimas, ele autorizou o incêndio de toda a propriedade. Demorou quase uma hora para que chegasse um pequeno relatório das famílias que possivelmente teriam consumido os alimentos contaminados. E então surgiu a dúvida:

- Vamos realmente assassinar as pessoas contaminadas?"

Continua...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A queda dos feiticeiros - PARTE 2 DE 4

Saudações, estimados amigos. Com certo atraso, trago-lhes a segunda parte de "A queda dos feiticeiros". Espero que apreciem e comentem.

A queda dos feiticeiros - Parte 2

Yanzakar era um reino imenso. Sua extensão de leste a oeste ia além dos três mil quilômetros, um emaranhado de vales, florestas, pântanos e planícies intercaladas por cidades, aldeias, vilarejos e uma imensa capital. O extremo norte ficava muito próximo ao mar, o que fazia com sua principal atividade econômica fosse a venda de peixes, caranguejos, frutos do mar e uma grande variedade de animais aquáticos encontrados apenas naquela região. Locais mais afastados das áreas litorâneas costumavam viver da pecuária e da caça de javalis, porcos-selvagens, capivaras, pequenos roedores e aves tipicamente florestais. Eram raras as cidades que não eram circundadas por grandes porções de mata virgem ou bosques, fazendo com que não fosse difícil encontrar lugares propícios para a caça. A agricultura em Yanzakar era mais praticada na região sul, próxima à fronteira com o reino de Yrlahn. Lá havia um extenso cultivo de vegetais – alguns, inclusive, raros, encontrados apenas no reino. Cebolas, nabos, tomates, rabanetes, trigo, soja, uvas e melancias eram os que proporcionavam as colheitas mais abundantes, mas havia ainda as maçãs, os exóticos melões-de-Yanzakar, as alfaces vermelhas, as batatas amargas, as raízes de mandioca, as cebolas-verdes, e as incontáveis frutas oriundas dos pomares que ficavam no extremo sudoeste do reino.
Grandes áreas cultiváveis eram comuns apenas em locais específicos, particularmente em propriedades pertencentes a grandes senhores de terra. Camponeses mais humildes costumavam plantar apenas o bastante para alimentar sua família – e, eventualmente, trocar parte de sua colheita por algo que suas terras não davam com algum vizinho. Não eram todas as áreas que eram férteis o suficiente para produzir grandes quantidades de alimento, tampouco havia propriedades rurais tão vastas a ponto de abrigar uma plantação muito grande.
Sabendo de tudo isso, Ezamyr, o fiel sacerdote de Moreito, o deus da justiça, conjeturava qual poderia ser o alvo dos execráveis Feiticeiros do Inferno Negro. A informação de que eles iriam “envenenar as lavouras” não dizia muito. Ele chegou a passar duas noites em claro com sua colega Yana, uma guerreira iniciante, e com Maross, seu truculento e experiente irmão mais velho. Cogitaram possibilidades, olharam mapas e traçaram possíveis rotas. Ezamyr pensou alto, se contradisse, mudou de idéia, tornou a cogitar a idéia anterior e perguntou várias vezes aos colegas o que eles achavam. Yana ficou em dúvidas, não teve certeza, olhou para o irmão, tornou a olhar para Ezamyr, voltou a ficar em dúvidas e acabou não ajudando em nada. Maross nada disse. Apenas ficou em silêncio e aguardou que seu colega decidisse.
E assim, três noites e dois se passaram, cheia de indecisões e incertezas, em uma viagem feita às pressas. O velho Genan, que os tinha informado do que iria acontecer, foi encontrado por eles na cidade de Diahl. Isso reforçou as suspeitas de que os Feiticeiros do Inferno Negro tivessem alguma base de operações nas proximidades da cidade – e que aquela região fosse seu primeiro alvo. Conversas amistosas com comerciantes da cidade revelaram que os campos cultiváveis de grande magnitude mais próximos ficavam a cento e trinta quilômetros dali, em Talyaron.
Talyaron era uma cidade de razoável porte, marcada por um conflito saudável entre os grandes senhores de terra da região. Vários deles comercializavam para as aldeias e vilarejos vizinhos parte do que produziam, e cada um deles procurava vender mais que os demais. Os preços baixavam constantemente para cobrir as ofertas dos concorrentes e até o transporte dos alimentos comprados era custeado pelos senhores de terra. Se havia um local que seria um bom alvo aos Feiticeiros, definitivamente era Talyaron.
A grande dificuldade de Ezamyr e seus colegas foi encontrar a rota certa até lá. Boa parte do tempo que gastaram em viagem foi caminhando em círculos no meio da Floresta de Harly e tentando encontrar a saída do Bosque do Verde Mágico. A cidade foi encontrada, mas havia uma preocupação com o tempo que foi perdido. Era bem provável que os cruéis Feiticeiros já tivessem dado início a seus planos malignos.

***

Guardas armados.

Os poucos quilômetros que separavam o Bosque do Verde Mágico de Talyaron eram formados por um declive. Já era possível ver as modestas muralhas da cidade, as ameias (não muito altas, na verdade) vazias e sentir o aroma dos legumes florescendo sob o brilho tímido do sol. E, sobretudo, era possível ver guardas armados.
Não apenas soldados protegendo as muralhas, mas pequenos grupos patrulhando as adjacências e inspecionando formações naturais que poderiam servir de refúgios a bandoleiros. O elevado número de carroções contendo alimentos (e moedas de prata) que entravam e saíam de Talyaron atraía saqueadores assim como o mel atraía abelhas. Indivíduos portando armas não eram bem-vindos na cidade. Qualquer um que não demonstrasse ter interesses meramente comerciais era alvo de um extenso interrogatório – e normalmente convidado a se retirar das proximidades de Talyaron.

- Vocês apenas devem confirmar o que eu disser, está bem? – era Ezamyr.

Yana anuiu com a cabeça e Maross com sua indiferença. Caminharam lentamente até se aproximarem das muralhas. Um grupo de soldados lá presente já os encarava, quando um outro grupo, vindo de uma das patrulhas nas proximidades os abordou. Não se mostraram amistosos.

- Quem são vocês e o que desejam em nossa cidade? – perguntou um deles
- Não parecem estar interessados no comércio – completou outro.
- Nem em nenhuma atividade lícita – disse um terceiro, olhando para as armas deles.
- Permitam que nos apresentemos, senhores. Chamo-me Ezamyr, e sou um fervoroso sacerdote de Moreito, o poderoso deus da justiça, patrono das causas corretas e protetor dos possuidores de coração puro. Venho à bela Talyaron em missão sagrada. Como sabem, viajar pelo reino pode se mostrar algo perigoso, e como venho de longe, achei por bem trazer comigo meus dois colegas de armas.
- Tem como provar o que diz? – inquiriu um quarto guarda.
- Naturalmente!

Ezamyr lhes mostrou o brasão de Moreito, esculpido em prata e preso a uma gargantilha do mesmo material. O amuleto tinha a imagem do deus da justiça: uma lágrima com uma espada dentro. O sacerdote tratou de explicar aos guardas que aquilo simbolizava que, cada dor que havia no mundo, motivava Moreito a enviar a Adalahar uma nova espada, um novo guerreiro, uma nova esperança. Naturalmente, Ezamyr o fez com palavras mais rebuscadas, cheias de floreios e metáforas verborrágicas.

- Se deixarmos vocês entrarem em Talyaron, promete que ficará quieto? – um deles perguntou.
- Certamente – ele respondeu sorrindo.

Os três ingressaram na cidade, sem saber que eram seguidos por dois dos guardas que há pouco tinham ficado para trás.

***

- Por gentileza, o senhor sabe me informar onde ficam as principais lavouras da cidade? – Ezamyr perguntou.

O agricultor o olhou com uma expressão de curiosidade e desconfiança. E não respondeu.

- Precisamos localizar o lugar que tenha a plantação mais extensa, sabe?
- Vão envenenar as lavouras! – berrou Maross, impaciente – Ficamos sabendo que uns caras pretendem envenenar as lavouras e queremos impedir! Podem nos ajudar ou preferem morrer?

A gritaria chamou a atenção de mais e mais agricultores, o que chamou a atenção de alguns guardas que estavam próximos. Quando tudo foi explicado, o chefe da milícia da cidade foi chamado. Com ele, vinte guerreiros respeitáveis, todos trajando armadura de couro curtido e empunhando lâminas de aço forjado por artífices do reino de Yrlahn. Os trabalhadores rurais foram, na medida do possível, tranqüilizados. Ezamyr e seus colegas estavam prontos para partir junto de Gollean, o chefe da milícia, e seus homens, quando um indivíduo enigmático chegou.
Trajava vestes de cetim alvirrubro, com uma gola imensa em formato de “V”, de onde pendiam dois talismãs que pareciam reluzir com certa intermitência. Nos pés, sapatos rasgados de couro vagabundo; nas mãos, apenas dedos cheios de calos. Tinha nariz adunco, lábios finos, sobrancelha espessa e cabelos desgrenhados de uma cor loura um tanto acobreada. Sua chegada fez até o mais barulhento soldado calar-se. Até as armaduras contiveram o seu tilintar.

- Garvyn. Então, você chegou.
- Sim, Gollean.
- Se o que dizem é verdade – Gollean disse a Ezamyr – as habilidades mágicas de Garvyn detectarão a presença dos Feiticeiros do Inferno Negro.

Ezamyr ficou feliz e sorriu com aquilo, muito embora os demais presentes tivessem reagido de forma oposta. Na cabeça do sacerdote, a pergunta era uma só:

“Impediremos os Feiticeiros a tempo?”

Continua...